Escrito...

A minha literatura diz e não diz: diz porque, no momento de aspersão inspiradora, (quase) se nota uma fisgada de incomodidade, uma crítica sutil, para que a poesia floresça... Não diz porque as inquietações são dialéticas - parte de cada leitor -, o que se vive, sonha, pensa e sente...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Antigamente




Em mil novecentos e antigamente se estudava à luz de lamparina; aprendia-se que quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral, e que um coque na cabeça não fazia mal.
          _E ela arriava um cocorote macio no coco do garoto!


Jonas Furtado

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mestres do Marajó

Dó, Ré, Mi, Fá, Sol... Mestre Antônio Pereira
Por Jonas Furtado
 
Foi com um famoso solfejo que o músico Paulo Sérgio Pereira (o amigo Catita) homenageou o mestre Antônio Pereira por ocasião dos seus 80 anos de uma vida simples, mas poeticamente musical, construída com muito trabalho e dedicação. O acontecimento se deu na sede social da AMAM (Associação Musical Antônio Malato) no início do ano corrente, e se prolongou durante uma semana com festejos e encontros em torno de uma das personalidades mais importantes para a cultura e para a educação musical em Ponta de Pedras.
Mestre Antônio Pereira aprendeu música com seu pai, um dos primeiros instrutores da banda musical do município, logo aos dez anos; estudou até o primário do Ensino Fundamental. A música está em seu sangue; um dos primeiros instrumentos a tocar foi uma viola e um cavaquinho, e mais tarde aperfeiçoou-se em saxofone e clarineta, dentre outros. A facilidade com que aprendia música era notada e logo se tornou um dos maiores e mais dedicados professores de música de Ponta de Pedras.

Tem como filosofia de vida o aprofundamento do sempre aprender e conhecer para atingir a perfeição e junto com isso o respeito. “...sempre foi um exemplo de dedicação e amor a tudo que faz, vindo diariamente de seu sítio ... para ministrar suas aulas...; enfrentando todo tipo de adversidade...”, comenta Rosiberto de Castro, músico e atual presidente da AMAM.
Quanto a nós, lembro claramente as primeiras aulas de teoria musical; ainda posso definir o que é música e em quantas partes ela se divide, aprendi a educar meus ouvidos com acordes sonoros e metálicos de um saxofone que encanta até hoje minha mente. É como disse o poeta Ló Martins (em homenagem ao mestre), os instrumentos “... Talvez tocassem mais uma melodia para homenagear aquele que com sutileza e maestria discorreu seus dedos e tirou [dos instrumentos] notas repletas de emoção...”. É com apreço e gratidão que homenageamos também nesta nota esse homem valoroso que é o mestre Antônio. PARABÉNS!
 
Crônica publicada pela ocasião dos 80 anos do músico Antônio Pereira

terça-feira, 24 de julho de 2012

É isso


Dito dúvidas, ela se escorou na porta que se foi abrindo a seu peso.
          Aos tropeços adentrou. Levantou o olhar, houve luz. Sentiu o pulso da vida...
          "Pronto! Invadi seu coração!"

(Publicado na Agenda Literária 2011 - Literacidade editora: Belém/PA)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dia dos namorados

 
          Passou pela conversa... e entendera, no tom explicativo da voz feminina, assim:
         "Mor, céu na bolsa!"
          Comprara ela um pedacinho do céu, um mundo de sonhos, para presenteá-lo. Que lindo! - pensou. E passou...
          Então, decidiu ficar apenas com esse sentido fonemático. E escreveu esta crônica... porque sonhou.

 
Jonas Furtado

A escolha da farinha

          Fora comprar o açaí.
          _ Litro e meio!
          Enquanto esperava, notou que havia farinha d'água à venda. Examinou. Dois tipos. Faltaria a farinha para o almoço? Já pensou ter que voltar? Por que não verificou antes?! Na dúvida, resolveu levar também.
          Voltou a olhar atentamente no balcão os poucos quilos comportados lado a lado. Confirmou: um tipo branquinha branquinha, de aspecto polvilhado, opaca, seca, fina; outra levemente amarelada, todavia com uma tênue vivacidade que remetia a certa crocância característica, que dava ao açaí o exato sabor do Marajó: leve e carregado.
          _ Pronto, seu Zílber. Sete e cinquenta.
          _ Dê-me dois dessa farinha aí.
          Não teve dúvida na escolha. O preço? O mesmo. Levaria a melhor.
          _ Garanto que o senhor vai gostar mais desta outra. As aparências às vezes enganam!
          _ Se o amigo garante, dois então.
          _ Doze e cinquenta tudo.
          Pagou e saiu para casa, pensando no almoço.
          Tudo posto. Mesa, corpo e vontade de comer. Prova a farinha. Credo! Ruim ruim! Tinha percebido a cara de doente das pesadas à direita. Bom experiente em farinha, o que as esporádicas lançadas a punho (memorizadamente afinados sabor, cor e textura) no Ver-o-peso lhe ensinaram, dificilmente errava. Escolhera agora uma, e o vendedor lhe recomendava outra! Queria era desempatar a mercadoria, aquele negociante fulo, esperto! Engoliu o bocado. Depois tareou na composição do prato para o agrado do gosto. Fome maior, tempero exato! O açaí era razoável para uma entressafra; mas as farinhas, pensava, não eram do mesmo saco!
          Como era passada da volta do trabalho, acostumou-se a comprar naquela máquina.
          No dia seguinte, deu pausa na iguaria e, pela troca, para o acompanhamento da comida, cozinhou uns poucos piquiás... resquícios de temporada. Mas a farinha, a mesma: ruinzinha ruinzinha!
         Vai que outra vez, caboclo da gema da cuia, passava pela venda em busca do vinho predileto. Notou que os quilos restantes do outro dia não estavam mais lá, no balcão; vendera o astuto batedor de açaí... Solicitou então litro e meio de açaí.
         _ E a farinha, seu Zílber?
         _ Não me agradou aquele tipo que o amigo recomendou-me.
         O comerciante sentiu certo despeito.
         _ Sabe, seu Zílber, o senhor só diz assim porque não provou da outra! - e fechou a cara.

Jonas Furtado

terça-feira, 2 de novembro de 2010

IDH


Seis e meia da manhã. À porta de uma loja (ainda fechada) um homem dormia.
À minha frente caminhava um outro homem com uniforme de gari da prefeitura, arrastando uma dessas lixeiras de rodas. Ele vê o homem deitado; pára. Deixa que eu passe; passo. Olho para trás curioso: não é que aquele servidor público “recolhe” o boné do homem!
Enquanto isso, ...a sujeira aumenta.
(Jonas Furtado)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ponta de Pedras está em Tucuruí



O livro "O poeta - novela", de minha autoria, está no III Salão do livro em Tucuruí (ver jornal Liberal 1ª edição do dia 1º).
A iniciativa foi da Casa da Linguagem, ligada ao Curro Velho.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Atualização...

Caros leitores,

Os meus blogs (Um poeta de Ponta - poesia e prosa) serão atualizados e modificados em julho para que em agosto volte a funcionar normalmente. Uma das modificações será no nome do blog de poesias: deixará de ser "Um poeta de Ponta" (nome do meu 1º livro, em prosa) e passará a ter a denominação de "O poeta" (em referência ao meu livro de poesia/novela). Dentre outras modificações.
Então, aguardem!

Um abraço a todos.

JONAS FURTADO

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Amor no ar

Tinha conhecimento de que ela estava ao redor, radiante.
      Na sede do município ouvia falar muito bem dela; foi quando, lá, ao passar por uma casa que ela visitava, escutei seu som alto e vibrante. Foi amor à primeira cantada.
      Mas fiquei triste porque onde moro não conseguia captá-la; não parei de pensar nela.
     Um dia, resolvi esticar o fio, improvisando no cajueiro ao lado: fiquei de antena ligada. Assim, ela entrou em minha casa falando e cantando, altiva, e me encantou.
     Desde então não me desliguei mais dela. Todo dia sintonizo a rádio Itaguary de Ponta de Pedras. Que alegria enfim!


Jonas Furtado

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O velho e o livro

Aconteceu no Centro 4, em Belém. Aguardava o resultado de uns exames laboratoriais e, enquanto esperava, observava, ainda que sem interesse algum, a movimentação naquela manhã de nove horas já. Umas conversas numa fila não muito longa adiante; funcionários que chegavam e passavam com papeletas, outros com vassouras e panos de chão...; aquele típico dia de batente numa repartição pública. Eu sentado num banco comprido, recostado à parede; em uma das pontas (quase não notei) também um velho de óculos, trajando camisa branca e bermuda, tinha um objeto debaixo de um dos braços. Num descuido, ele desapareceu (ou eu não dei caso?).
Voltei ao balcão: Sai às dez horas, disse a atenciosa atendente.
Resolvi andar para que a paciência não se impacientasse, não fosse embora de mim.
No saguão da entrada, um rosto conhecido..., uma conterrânea. Os raros dias que passava na Capital sempre me revelavam pessoas de minha cidade que vinham estudar, procurar médico (como eu), ou ganhar a vida. Era olhar pela janela dos ônibus e descobrir gente... Agora, essa do posto. Ela primeiro me viu; cumprimentou-me. Estava ali vendendo livros e convidou-me para uma olhadela. Taí algo que me chama a atenção: livro. E sobre a tabuleta uma juntada deles; havia mini-dicionários, revistas, CDs de literatura infantil e até um que ensinava inglês. Folheava uma enciclopédia enquanto a conversa mal fluía. Nisso, o velho reaparece, agora a espiar para a banqueta de livros como a procurar... o quê? Não encontra.
Eu estava ali para saber do motivo de uma crescente palidez. Sobressalto-me com a ralhação do velho que mostrava um livro que acabara de tirar debaixo do braço; pronunciou um discurso apaixonado em favor desse livro: “Este sim é coisa que se deve ler, um livro nosso, valoroso, conhecedor de gente de verdade,...”
Antes que se aglomerassem curiosos, o velho, como veio, se foi... Já recuperado, sentindo o sangue corando minha tez, perguntei a minha conhecida o nome do livro que o tal homem recomendara tão veemente; não sabia ela. Uma senhora, com um sorriso de bonomia, diria até familiar, toca em meu ombro: “Era um Dalcídio, meu filho”.
Isso foi pelos idos de 97, 98. Já tinha lido “Marajó” e “Chove nos campos de Cachoeira”. Volto-me para a conterrânea (que nunca ouvira falar de Dalcídio Jurandir, até então) que franzia a testa como a perguntar algo, e então confirmo que o velho estava correto, cheio de razão.
Hoje, quando percebo os esforços dos amantes de literatura, estudantes..., quando vejo surgir associações em torno dos assuntos de nossa região, que tentam somar, resgatar nossa cultura, nossa história..., pessoas com gosto de viver o presente tendo a certeza de já existir no futuro um caminho..., me vem a voz daquele velho, ecoando ainda e sendo de certo ouvida.

Fogo fátuo

Diz a lenda que uma grande cobra chegou ao município de Ponta de Pedras e mundiou a maior parte dos habitantes. Em pouco tempo, o lugar ficou infestado de cobras menores, também peçonhentas. Esses animais estavam sugando os sustentos que o município recebia.
Um dia, a cobra maior começou a se inflamar com os protestos da outra parte da população, descontente com a situação. As revoltas aumentavam e faziam arder as fuças da besta-fera. A chama cresceu e, numa noite fervorosa, incendiou a podridão que assolava, astutamente, a cidade; o fogo pôde ser visto a centenas de metros de distância.
No dia seguinte, todos, ainda aturdidos, comemoravam a quebra do encantamento. Mas estariam livres daquele mal? Enganaram-se.
As cobras menores agitaram-se em seus ninhos; a víbora ressurgiu das cinzas (mas como não era ave...) no corpo de outra peçonha maior e a história quase se repetia. Quase.
Desta feita, a flama da população continha a magia suprema da força do bem, que detonou as intenções daquele monstro horrível. A cidade se livrou enfim.
E o monstro? Parece, vive como uma mula, botando fogo pelas ventas, dizem que reparando o mal que cometeu. Tem gente que duvida.
Mas, para que essa catástrofe não volte ao solo pontapedrense, deve-se contar essa história por várias gerações. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Tulê

Tipo folclórico aquele garoto que nos acompanhava nas aventuras pelas matas de Santana, de Tartarugueiro ou de Crairu. Muito contador de mentiras, diziam. Dava uma resposta simuladora, dissimulada, assim... de sério rosto e com a voz alta (mas sem grito), fazendo misuras com o rosto e com as mãos.
Sua primeira façanha surgiu quando teria uns 10 anos.
Jacaré era a alcunha de um dos maiores apanhadores de açaí das redondezas. Certa noite, Tulê ouviu meio de relance os velhos gabando-se do homem ligeiro das palmeiras. No dia seguinte, vindo do mato, o pequeno jurou ter visto um jacaré subido no açaizeiro. A mãe dele, contando o caso, suspirava: “Só o Tulê mesmo com essas histórias”. A próxima dele foi ter sido perseguido por um pé-grande quando colhia bacuri perto do cemitério de Santana: “Eu vi sim!” – terminou ele fazendo bico com a boca.
Outra vez, Balado, Tirico, Aparecido e eu resolvemos brincar com ele. Inventamos uma certa boiada que tinha surgido pelas redondezas.
_Tulê, viste então os bois passarem por aqui? – indagou o Tirico com jeito de quem tinha por dentro uma certeza da resposta.
_ Estão todos lá na beira do rio bebendo água, acabei de vir de lá.
As risadas admiradas jorraram de tamanha cara de pau do garoto.
Hoje, atento para as pequenas recordações, concluo que o pequeno mentiroso na verdade era um sonhador, um vislumbrado desse mundo que preferia enfeitar tudo com fantasias, demonstrando assim uma poesia latente.
Difícil compreender o ocorrido com ele depois daqueles dias, daqueles anos felizes. Melhor mesmo nem contar.

Nascido na cidade

Eu, com meus nove anos, certa vez li na minha certidão de nascimento: “nascido a 17 de julho... na cidade de Santana do Arari”. Foi um orgulho essa descoberta; passei a ser menino de cidade e não de vila, de comunidade. Era diferente então dos meninos do Tartarugueiro, do Crairu, de Santa Maria, de Porto Santo, porque eu nasci numa cidade, e eles pertenciam as suas comunidades. Comunidades de Santana do Arari.
          Quando íamos brincar de bola no Tartarugueiro, na verdade sentia-me num sítio de Santana. Nada diferente. Mas eu imaginava uma distinção entre a minha cidade e seus interiores. Em alguma disputa mais acirrada, poderia me valer do brio de ser de cidade e eles não, e queria jogar essa na cara dos meninos das comunidades vizinhas, mas sempre amolecia e expulsava essa vontade da minha mente. Algumas pessoas diziam que eu parecia com o finado Rildo; ele é lembrado como um rapaz justo e generoso. Morreu jovem - acidente num jogo de futebol.
Só com dez anos e meio descobri que o homem do cartório em Belém, onde minha mãe me registrou, se enganou.
          _Não, o Ediberto Filho não nasceu aqui, seu moço, ele nasceu foi em Santana do Arari mesmo.
E o “seu moço” (porque será que penso no homem do cartório como um ser burocrático, metido a doutorzinho de meia tigela?) assentou “cidade”. Tinha era que ter estudado como eu estudo, o velho. Ou que perguntasse, pesquisasse. Ainda ouço reclamações de pais de alguns amigos meus que o escrevente tinha errado a grafia dos nomes deles. Eles levavam o nome anotado para o carrancudo não cometer “lapsos”. Isso de nome é muito íntimo das famílias. Trata-se de nossa primeira documentação, o comprovante de nossa existência social. Quem não gosta do nome quer trocar. Ainda bem que o meu é o de meu pai. Não troco.
          Pois sim. E o homem sério atrás da máquina datilográfica, em sua praticante ignorância, me deu um ano e seis meses de menino de urbe.
          Depois, fui mesmo aceitando o fato. Santana é só uma vila, uma comunidade do município de Ponta de Pedras. Aliviava-me por não ter debochado dos meninos do Tartarugueiro.
          Antes da chegada dos professores para implantação do Ensino Fundamental, parecia que mais pertencíamos à Cachoeira do Arari, pelas paradas dos barcos no trapiche aguardando a maré, pelo rio Arari... A cuidar, muita gente nossa daqui nasceu em Cachoeira. Porque tinha parente, porque o padre convidou, porque tinha uma nesga de terra acolá para casamento com filho ou filha do lugar. Minha mãe nasceu em Ponta de Pedras, na cidade mesmo. E meu pai era cachoeirense dali do Caracará. Ele veio numa festa do círio de Santa Ana e botou olhos naquela negra arredia. “Pôs olho em mim e não foi fácil!”, gabava-se ela. Acabou cedendo aos galanteios do jovem Ediberto Silva. Ah, isso quase dá fuzuê. Minha mãe tinha outro pretendente, dizia...
          Já eu nasci aqui na comunidade. A dona Joana, parteira velha, foi chamada à boca da noite para ver se eu nascia. “Nasce, sim!”, garantia ela na sua exclamação de sempre sentir a vida uma maravilha única. E era. Mas na dúvida, papai arranjou embarcação para levar dona Marica para Cachoeira. Nem foi preciso; nasci ali mesmo em casa, pelas mãos da velha parteira.
          _Não disse?! Homem!
          Então, essa de me orgulhar de minha cidade, a maré levou, o vento soprou para os recantos da lembrança quase esquecida. Acho que foi um sentimento de frustração o que senti depois.
Mas, à medida que eu aprendo e cresço, minha imaginação quer me levar para muitos lugares, outras cidades; e eu vou, ainda que sem sair de Santana.

sábado, 31 de outubro de 2009

A viagem

Álvaro Campos é o meu nome, doutor...? Gabriel, mas pode me chamar de Campos. As pessoas me chamam assim. Pensam que é pelo fato de eu morar no lado do campo; algumas até esquecem o “s”: “Campo”, “Bom dia, senhor Campo”, “Fale com seu Campo...”.
          Como posso compreender o que houve?
         Juro, doutor, que não sofro de nenhum complexo, nem mesmo usufruo de pensamentos mórbidos. Alguns pesadelos de outrora são, hoje, fantasmas bem enterrados.
          Não me assombra mais a cabeça gigante de sombra pintando-se no meu quarto (apenas dormia de mau jeito naquela noite); o velho que carrega criança no saco não passa de brincadeira mítica pra criança obedecer; matinta-perera é pássaro que nunca me afrontou, nem em sonhos sequer; sereia é história de pescador, é lenda, assim como da uiara, do curupira, do boto que vira gente; definitivamente, doutor, dessas tolices estou curado. Cobra-grande existe. Meu padrinho viu uma!
          Brinco com sombras projetadas na parede à noite; arremedo o assobio de qualquer ave e esse negócio de agouro é bobagem das mais puras; formiga dentro de casa, acabo com óleo diesel; presságios relacionam-se ao sexto sentido, acredito. Nunca mexi com os mortos, ah isso eu respeito, questão de dignidade: vou morrer também. Nisso sou cristão. Respeito qualquer religião ou seita. Sempre defendi a liberdade aliada à responsabilidade para que se possa ter uma boa convivência em sociedade.
           Por isso tudo, doutor, não acreditaria no que aconteceu se não tivesse sido comigo.
          Lembro-me de que... Ah, o senhor tem conhecimento... Pois sim. Minha esposa, Suzana é o nome dela, estava de viagem marcada a Belém para uma consulta médica. Sentia dores finas no peito e desconfiava de doença do coração. Difícil Suzana adoecer; sempre tão alegre e disposta. Descarto a possibilidade de ela ser hipocondríaca. Pois bem, na madrugada ela me acordou; tinha já arrumado tudo: sacolas e bolsa. Oraci, nosso filho, também estava pronto. Ele ia com ela. Não fosse o trabalho, eu iria junto. No entanto, eu deveria acompanhá-los até a lancha. Eram mais de duas horas. Suzana é acostumada a acordar cedo. Quando criança (contava ela), ajudava a mãe a lancear e nas despescas do matapi, “a que hora fosse”. Não temos despertador e se temos algum compromisso num horário desses, ela é o nosso relógio.
          Levantei. A luz da lamparina incumbia-se de nos orientar (a elétrica é interrompida sempre à uma, toda noite). Fitei, sonolento, o pequeno Oraci. Ele sorria em minha direção; apenas um lado de seu rosto me era visível. Tateei com os pés a procura de minhas sandálias: nada. Quase joguei o bibelô de gesso no fim do corredor ao passar para a sala: lá estavam as sandálias. Só deu tempo de passar o pente pelos cabelos. Saímos.
          “A rua está um breu!”, disse Suzana. Ainda pensei em algum personagem macabro e terrível do filme de terror a que assisti no “Domingo Maior”. Estaria atrás do muro do campo? Tomamos a Rodovia Mangabeira. Íamos andando apressados em direção à frente da cidade. Em Ponta de Pedras, o senhor sabe, cidade pequena do interior, tudo é perto: se vai a pé. Quando percebi, já havíamos chegado ao trapiche. Despedimo-nos. O “Malato” desatracou (não estava totalmente lotado) e desapareceu no cortinado da noite.
          Tomei o caminho de volta. No relógio da igreja da praça da Matriz soaram três horas. Poucos passos ouviam-se no escuro. O vigia da feira anunciava com seu apito que estava no seu posto. Prossegui; em frente à Prefeitura notei que o cajueiro ao lado dela formava uma “monstra” sombra no ar, misteriosa – seria assombração? Besteira!
          Desci pela calçada do cemitério (na vinda nem me dei conta de que passamos por ele); talvez devesse tomar a 30 de Abril, cambaria lá adiante e em frente da oficina (trabalho lá) entraria na Itaguari, virando logo à esquerda, na rua em que moro, no lado do campo: na rua do campo, como chamamos; assim como damos apelido às pessoas, as ruas também ganham apelidos e seus nomes ficam no esquecimento. Mas como eu dizia... Não tomei o trajeto planejado. O medo, doutor, já disse, não mais fazia parte de meu parco vocabulário. Continuei pelo cemitério (afinal estava indo para casa!). Antes que a calçada terminasse, cuidei de pegar a estrada (o mesmo caminho da vinda). Caminhava ao lado do cemitério; uma olhadela pelos cantos dos olhos revelou-me algumas cruzes e um gato no muro ou sombra de um. Aumentei o compasso dos meus passos no instante em que ouvi um assovio (assim, mavioso) ecoando em várias direções – alguma ave noturna, achei – não. Seguiu-se outro, e dessa vez tive a certeza de que eram assovios de gente. Repreendi meus pensamentos. Imagens do filme povoaram novamente minha imaginação. Continuei agora mais tenso. Virei à rua de casa e em poucos segundos varei o portão. Por um momento tive a impressão de estar sendo seguido. Abri a porta e entrei.
          Acendi a lamparina; deixei-a no corredor, na entrada do quarto para que ele não ficasse totalmente escuro... Deitei.
Deu-me vontade de ir ao banheiro, mas estava realmente cansado. Fiquei relutando e esperando um brusco movimento de meu corpo que me pusesse de pé, quando ouvi o portão ranger. Seria o dono daqueles assovios? Não! Fiquei em alerta. Senti que a porta da frente se abriu e o esperado movimento brusco finalmente me joga da cama. Caminhei com cautela até o corredor: era Suzana de volta, dizendo que a embarcação sofrera pane: “Foi no motor, perto do farol”. Mas, não me lembrava de ter dormido e, no entanto, nem vi o tempo passar. Contemplei por um momento seu rosto, pálido pela luz escassa, talvez. Havia um não-sei-quê de sinistro acontecendo, notei. Ou eu deveria estar mesmo morrendo de sono.
          Tinha sido uma semana cheia, com dias exaustivos: carrega tábuas, lixa móveis, prega trincos, cola peças; sem contar o barulho ensurdecedor das máquinas serrando, plainando, torneando, furando... Era pra tanto! Vida de marceneiro...
          A bexiga anunciava aperto maior. Aproveitei e fui ao banheiro; difícil admitir que poderia estar com uma ponta de medo. Não! Isso é coisa pra criança. Meu finado avô, doutor, certa vez me disse que “o medo é a gente mesmo quem faz”. Sim, abri a porta dos fundos (o banheiro fica a poucos metros da cozinha, no quintal). A escuridão era intensa; orientei-me pelo costume de sempre ir ao banheiro à noite. Tivesse algumas estrelas, seria de bom grado um presente celeste naquele momento...
          “Isso é coisa pra criança”, pensei novamente no medo que poderia estar sentindo. Enquanto mijava, o apito do vigia da feira me veio à lembrança como que querendo me tirar de um transe: foi assim que percebi que Oraci não tinha voltado com Suzana. Por quê?... Deixei o banheiro e, atarantado como formiga doida, tomei da lamparina e entrei no quarto. Antes que entrasse, eu já perguntava pelo nosso filho. Suzana levantou-se (estava sentada junto ao espelho da penteadeira) e sussurrou “meu coração...” com voz serena “ele viajou...”. A luz encheu seu rosto e fiquei perplexo!
          Não pude compreender o que houve, doutor, mas ela estava sem um lado dos olhos, e os ossos da mandíbula sem a proteção da pele. Acho que desmaiei.
         O que realmente aconteceu, doutor Gabriel? Sonhando profundamente? Mas, era tão real... E minha esposa, meu filho, onde estão? Por que não vêm me ver? E se era só um pesadelo, o que faço num hospital? Fiz uma viagem? Que viagem...?
          _ Acorda, Álvaro. Está na hora. Já estamos prontos! ...

domingo, 6 de setembro de 2009

Minha infância

Foi um tempo quase desconhecido para mim, não fosse a curiosidade pelos mistérios do mundo a minha volta. Anos 70, começo dos 80. As lembranças me vêm agregadas à saudade; um desejo de reencontrar-me criança invade-me numa esperança de viver novamente aqueles dias fagueiros, de verdades e fantasias; preencher assim lacunas das quais minha memória deixou de se incumbir.
          Em minha Ponta de Pedras vivi pontas de sonhos imensuráveis, abstrações que nem a realidade (quase sempre dura como pedra) pode dissipar por completo; e fatos reais misturam-se ao mágico desabrochar do menino na terra querida dos seus avós. Ponta de Pedras sou eu e as pessoas a ponto de encontrá-la sempre menina, sempre princesa em memória de vida... Vejo-me ainda menino, lá no Cucuira, ouvindo os velhos chamá-la de Itaguari! “Dé onde tu vem? Dé Itaguari!” Velhos tempos em que passávamos o dia lá no terreno do finado Binga debulhando açaí e ouvindo casos sem fim.
           Lembro como lances fotográficos... Ao redor de mim, as coisas que faziam o coraçãozinho pular veemente por ter vontade de mais e mais viver. Viver as ruas, as casas, as gentes e suas histórias: viver-me!
          Uma vez, assustado, corri para minha avó: “Meu coração está batendo!“, aí vinha aquele sorriso cheio de bonomia, clareando o rosto bonachão, querendo me fazer entender que era normal : “ É porque tu tá vivo...”. As justificativas tornavam-se incisivas para que eu parasse de indagar e cada vez mais eu indagava: “Por quê?”.
          Minha ‘vozinha. Lembro-me dela fazendo pastilhas de coco para festinha do jardim de infância: “Professora Sônia vai adorar me ver vestido de quadrilha“, com aquele bigode de pó de carvão, “parecendo homenzinho já feito”, de chapéu de palha e calça enfeitados.
          O jardim... Meu primeiro amor. Funcionava lá onde é hoje o seminário dos padres. Quanta felicidade: brinquedos, o uniforme quadriculado, as festas infantis e a professora! Uma vez, meu irmão transferiu-se para minha classe com sua autoridade inocente de criança (queria também a mesma professora?). Não teve jeito: ficou transferido! Minha irmã acostumou-se com a dela; íamos os três, juntos, e voltávamos alegres, com a roupa suja do “escorrega-bundas”.
          Agora, com meus dezoito anos, lembro e comento do quanto minha cidadezinha mudou! As ruas perderam aquele segredo de levar-me aonde? E o boi do Mangote que fim levou? que não o vejo mais arrastando sua carroça na lida do dia-a-dia. As casas, algumas ainda possuem uns quês antigos do tempo querendo falar através delas; os comércios, as tabernas tinham jeito de começo de século, jeito e cheiro – ainda posso sentir a borracha, o pirarucu, a piranha salgada que vinha do Arari impregnando o ar lá na “Casa da Prosperidade” do senhor “Nemorino”: ele fazia questão de uma cuiona de mingau de milho branco lá da dona “Xixita”. Lembro-me vagamente de outras casas, com fachadas tipo colonial, com seus grandes nomes. Nomes que pareciam querer revelar um pouco de seus donos: “Casa da Beira” e o “Ponto Certo” – os práticos; “Casa Tavares” e “Farmácia Alencar”– os tradicionais; “Canto do Uirapuru” – os poéticos; “Casa Nossa Senhora da Conceição” – os devotos; “King Bar” e “Big Bar” – os modernos...
          Por detrás da “Casa Tavares”, os foguetes chiavam e ganhavam espaço, explodindo anúncios de folguedo e arraial, avisando os ribeirinhos do Marajó-açu em dias festivos. Ficava de longe. O estouro me amedrontava; mas acompanhava o trajeto dos rabos vindo mergulhar na água qual ave pescadora atrás do marisco.
          As canoas aportavam na rampa, cheias de utensílios artesanais: alguidar e potes, chapéu de palha e esteira, rosquinha e mel... “Compre um potinho de mel pra comer com farinha”; outras, com frutas: banana, pupunha, manga, bacuri, piquiá, cupuaçu e tantas mais que enchiam o ar de “marajoareidade” – como dizia meu tio na sua sabedoria interiorana. E ficava observando as canoas indo e vindo; no meu pensamento, eu as controlava; exceto a maior de todas: o “Raimundo Malato” – o “Barco da Linha”. Às vezes achava o rio pequeno demais para ele. Minha avó dizia que as coisas é que eram enormes para o meu olhar infantil.
          Lá no quintal... Tivemos vários quintais; em cada um havia um segredo que eu teimava em não descobrir para não “quebrar o encanto”, apenas vivia-os. Lá, imaginava o mesmo movimento no porto e na feira: os mesmos barquinhos (agora de papel) deslizando na água que escorria da torneira do banheiro ou da enxurrada que molhava todo o terreiro: “tun-tun-tun-tun-tun”. E eles encostavam ligeiros no trapiche imaginário dos meus sonhos.
          Moramos no lado do campo de futebol. O barulho das torcidas em dias de jogos enchia-me de um querer torcer também. Mas para quem? “Quem joga? Quem ganha?”; e me empurrava atrás dos maiores, mangueira acima. De lá se vivia a mesma euforia; no entanto, nunca consegui distinguir, daquele ângulo, quem era quem! “O que tu entende de time!?”. Sem falar do quanto eram perigosos aqueles galhos finos; mas o quê? Peraltices não vêem perigos...
          De manhãzinha lá ia eu comprar manteiga e pão no seu Raimundo "Prego". Ele: "Quanto?", e mostrando dinheiro: "Isso". Boas-tardes podiam ser ouvidas do “Jereba” que passava na rua com saco de cocos nas costas – “Boa tarde!”- mas eu corria... Ah, quanta saudade!
          Outra lembrança inesquecível: a “baiúca” do seu Joaquim. Quase todas as tardes (ou manhãs) lá estava eu com a palavra “Big-bol” na boca; e quando não tinha dinheiro, ele me entregava um. Talvez fosse por isso que sempre o achei com “cara de bom-velhinho”. Localizava-se onde hoje é a casa do Francisco Pereira; depois se mudou para frente do banco, debaixo de um jambeiro frondoso; agora é no “coretinho”, na mesma pracinha. Ainda vende bombons!
          Alguns raros domingos, minha tia nos levava (meus irmãos e eu) para a praia – era uma alegria só! Íamos de ônibus. Não sei se era dos famosos “ônibus do Cícero”; deveria ser, pois de lá pra cá nunca ouvi falar em tais com outras designações. Era uma maravilha! O vento soprando no rosto pela estrada, esvoaçando os cabelos finos que me caiam na testa. Deslumbrava-me com as árvores e os campos passando e nem sabia que quem passava era a gente. Praia de Mangabeira: os coqueiros, os ventos, as ondas, a areia, alguns botes passando ao longe, “lá forão” – como disse um colega uma vez. E brincava na água com o sol a pino. Às vezes subíamos e andávamos atrás de mangaba até certo ponto da estrada...
          Todas essas lembranças, as histórias e seus personagens reais, tudo motiva o encanto que por Ponta de Pedras sempre guardei; tudo me dá orgulho nessa terrinha, terrazinha que sempre amei.
(1º lugar no concurso litário de Ponta de Pedras)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma história de boto

“O boto é um animal manso e brincalhão”, exemplifica um dicionário. De fato, ouvi casos no interior onde trabalho que denotam puras fanfarrices desses cetáceos pregando peças na imaginação das pessoas.
E “...altamente inteligente”, diz outro dicionário. Que valha a história que se segue.
          O casal de namorados escolheu o trapiche da vila para efetivar o ato que todos comentavam que eles já tinham realizado. “Se há a fama, que haja o feito”.
          A noite não poderia estar melhor, propícia para a defloração da planta que se vê em véus: com aquele céu límpido, mas ainda sem estrelas. Um desejo secreto pulsava naquele momento. Do mar soprava uma brisa constante e refrescante. Nenhum barco, nenhum fumante dessas bandas dando uma de pescador para atrapalhar. A menina exalava um calor sensual, e já quase nua esperava pelo gesto instintivo do rapaz que lhe ganhara a feição. Foi quando um estouro de água perto da escada bem debaixo deles deixou escapar um “chuá” que fez o casal mostrarem o amarelo dos pés, interrompendo o ato. O comentário na vila foi de que um boto tinha desaprovado aquela união porque já era enamorado da moça.
          Zé Bira foi quem alimentou a história dias consecutivos. O povo aceitou a explicação, mas teve quem seguisse o fato de que Zé Bira fora antes rejeitado pela moça, que não o quis paquerar. Isso foi antes. Passaram-se anos.
          E essa história de um boto rondando a casa da menina à noite veio ganhando ares.
         A dita cuja, depois de aparecer grávida do namorado, foi morar com ele numa casola de paxiúba na beira do igarapé.. De fato o casal, logo depois do ocorrido naquela noite, não tardou a entrar na vida sexual que tanto desejavam. Tiveram uma linda filha que mais parecia uma irmã gêmea da mãe quando criança, diziam. Tudo se ia como se vai.
          E a vida se passava pacatamente quando a mulher começou a definhar: médico não deu jeito! A história do boto que a assombrou quando solteira veio à tona: “O boto está visitando sua mulher, homem” diziam os amigos. O homem armou uma para pegar esse boto. Emprestou a espingarda do primo de Zé Bira e fingiu ir lanternar, ficando à espreita. Chegou a ouvir algo suspeito na água do igarapé perto da casa; o homem preparou a espingarda, no entanto nada viu. Repetiu a infeliz artimanha por mais algumas vezes e chegou a conclusão de que sua mulher estava mesmo era doente: mas nem remédio de médico nem de mestre! Faziam-lhe tudo quanto era chá e banhos, nenhum efeito; e o imaginário coletivo concluiu que fora o boto quem malvadou dela.
          Ah, qual mistério se esconde por detrás da índole de tão famigerado bicho?

Outra de boto

O conto “Uma história de boto” foi publicado no informativo que a escola da região mantinha. Os pasquins espalharam-se nas comunidades feito epidemia de cartas de parentes queridos.
               Num dia, Manoel, filho de nove anos de Zédalo, chegou da escola e atirou os cadernos e livros sobre a mesa da cozinha. O jornalzinho voou para as mãos do pai. “Assim tu trata do material, Manduca?! Tenha zelo, menino!” O pai segurou a folha. “Saiu o de junho!” Leu. Leu tudo. Leu o conto do boto.
               Josédalo, caboclo trabalhador, tinha mania de ler; não perdia os informativos da escola de seu filho. Lia de tudo: poesias, contos, mesmo que deles, às vezes, pouco entendesse. Aliás, costumava dizer que o gosto pela leitura era herança do pai, homem – também caboclo – apaixonado por mitologia. O nome “Josédalo” surgiu da discussão entre seus finados pais: a mãe queria homenagear o patriarca da Sagrada Família e o pai, o artista mitológico das asas de cera; num átimo de cordialidade concordaram em dar-lhe o híbrido nome “Josédalo”, ou Zédalo, como ficou conhecido no interior onde sempre morou.
              Zédalo freqüentou escola até as séries iniciais; não havia mais escola para ele na região. Sair não podia. Era arrumar mulher e filhos e se atirar na luta do dia-a-dia: apanhar açaí, tirar lenha, fazer carvão, preparar roçado, caçar e pescar. Porém, fazia gosto que seus filhos, Manoel e Ofélia, estudassem e fossem além dele. Viridiana, sua esposa, que andava doente, mofina, também aplaudia aquele interesse pelo conhecimento que Zédalo sempre fez questão de alimentar.
               Mas Zédalo mudou depois de ler o conto do boto. Aquele conto lhe abrira os olhos?
               Quando conheceu sua esposa, via nela a vida que pulsava e nunca cansava porque queria sentir na alma a glória de estar no mundo depois de, quando criança, ter escapado de uma grave pneumonia. Há algum tempo ela começou a andar cabisbaixa, suspirando pelos cantos, mostrando uma tristeza repentina. Numa caçada, certa noite, Zédalo desabafara com seu amigo Rodugo. “Sua mulher pode estar mesmo doente, home! Leva ela no mestre Ziu.” O povo é que já comentava que o boto judiara dela. “O boto anda visitando tua casa, Zé!”, “Tua mulhé tá mundiada do bicho tinhoso!” Zédalo queria que fosse ao médico; ela adiava. Já tinha tomado garrafada de pajé. Até trabalho para o tal bicho das águas e da terra ir embora foi feito. Nada. Tinha que ir ao médico!
               Um mês depois disso, Viridiana disse que estava grávida. Seria uma festa. O Zé sempre festejou o nascimento de um filho. Convidava o pessoal e armava a “mucura”; a maior peixada e camarão assado com açaí eram os tira-gostos da pinga de Abaeté – cachaça doce e apimentada! Mas dessa vez não. Da queda que sofrera de um açaizeiro, Zé conseguira manter a virilidade, mas não mais engravidaria sua esposa, conforme disse o médico. Só ele carregou o peso dessa notícia. Viridiana não ficou sabendo da esterilidade. Zédalo se conformou com os dois guris que já tinha.
               Todavia, a mulher ficou de barriga. Milagre! Não, não fizera nenhum pedido aos santos nesse sentido. Mas Viridiana grávida! Enganara-se o doutor comigo; serei pai de novo. Mas, os tais deferentes rompidos. Sentia-se, nas palavras de seu próprio pensamento, “capado”. A companheira ignorava o fato. Ela poderia desejar ter mais filhos...
               Viridiana mostrava traços arredios de maternidade lassa; a palidez desquarava o semblante outrora moreno e cheio de luz; a titinga deu sinal abaixo das orelhas e o brilho jovial da pele macia ofuscara-se – nuvens descontínuas amorteceram a estrela do dia.
               "O boto, home, anda visitando tua casa!”. As palavras das gentes tiniam na vontade de Zé. Tiniam agora insinuantes, porque até então aquela história do boto era choça para ele.
               Mais depois de ler o tal conto do boto no informativo, Zédalo mudou mesmo. Atinou para as freqüentes visitas que Rodugo ultimamente lhe fazia. Aparecia, principalmente, nas ausências do caboclo. Um pensamento de traição lhe assolava o corpo e a mente. Talvez não quisesse pensar assim. Infâmia. Traição. Rodugo e ele foram criados quase juntos. Não podia. Porém a raiva crescia no peito de Zédalo, o tórax estufava-se e comprimia-se, mandando rajadas de fúrias que fervilhavam nas veias e dirigiam-se frementes ao cérebro: “Rodugo era o boto filho da mãe!”.
               O homem, agora transformado, mudou o semblante, deixou o informativo sobre a mesa e, dirigindo-se ao igarapé na frente da casa, pulou em suas águas frias. Conteve por hora sua febre. Parou, pensou, decidiu...
               Disse à mulher que à noite iria lanternar; já tinha convidado Rodugo. “Vou caçar nem que seja um boto”, pensou, “Mato esse desgraçado”. Viridiana queixara-se como que temendo algo. Não teve jeito, à noite ele foi ao encontro do amigo.
               No meio do matão, Zé se volta (parecia controlado) para Rodugo que defende, com a mão esquerda, os olhos da luz da lanterna de Zé, que o encandeou.
               _Há quanto tempo tu me trai? Há quanto tempo, Dugo?
               Não esperou resposta. O aparente controle explodiu com o estampido da arma que crivou Rodugo com chumbos.
               _Ande, home, fale!
               Rodugo, cambaleante, se atira nos braços do amigo, movendo a cabeça para os dois lados. E morre.
               Zédalo nunca esqueceu o movimento da cabeça de Rodugo. “Queria dizer que não era verdade a acusação?”. Essa imagem o perseguia agora.
               Os parentes do morto conformaram-se. “Fora acidente”. “Fatalidade”. “Acontece”.
               Meses depois, Viridiana, sentindo dores, desatinada, jogou-se nas águas frias do rio Crairu. Deu à luz uma criatura horrenda. Contam meio cobra, meio peixe. “Feto mal-formado”, disse o enfermeiro do local. “Filho de boto”, comentou a veterana parteira.
               E Zédalo? Ele não parou mais de lanternar. Até hoje convida seu amigo Rodugo; e nunca chega com caça alguma.

domingo, 30 de agosto de 2009

O avião do dinheiro



_ Chegou o avião, Zeca. Hoje sai dinheiro.
          A turista que ouviu o comentário de dois amigos que conversavam ficou meio sem entender. O avião que acabava de pousar era para levá-la a Belém. Ponta de Pedras, permita que eu explique, entrou na rota do turismo. Vem gente de tudo quanto é parte. Até estrangeiro. Antes nos deparávamos só com italianos por conta dos padres. E quem tem visão é que se dá bem; quem tem visão e dinheiro. Uma boa pousada, um bom restaurante, sorvete com sabores “exóticos”, um bom táxi,... Eu tenho visão.
          Mas a turista a que me referi era uma professora-pesquisadora da universidade. Veio conhecer a terra de tantos ‘causos’; a terra que até escritor famoso agora tem, graças às investidas de estudantes e pesquisadores universitários para o reconhecimento do nome Dalcídio. O colégio novo tem o nome dele. Já não era sem tempo!
          _ Não era o avião, Zeca.
          _Devia ser um avião pra levar doente, Dico.
          Voltemos à professora. Ela pediu que seu aluno, e anfitrião, lhe explicasse essa do avião. Ficou sabendo que, em dias de pagamento do funcionalismo da rede municipal, todos tinham a certeza do dinheiro quando o avião atravessava a cidade, sobrevoando baixo em pouso. Fora isso, táxi aéreo na cidade? Só quando tem doente grave ou outros casos raros.
          _ Só desceu um, até agora, Dico. E nesse não veio.
          _ Só ouvi um também.
          Ih, eu nem me apresentei. Sou o taxista Mansão, o que conduziu a professora-turista ao campo de aviação. Veja só! Ponta de Pedras tem táxi. Está evoluindo. Claro que as corridas acontecem nas chegadas dos barcos e em chamadas como aquela da professora. O dinheiro quando entra traz progresso. Todos ganham?! Vale lembrar que para muitos esse progresso vem devagarzinho ou acaba nem vindo. Fruto de uma herança histórica. Quais as perspectivas de uma cidadezinha que cresce quase desordenadamente? “Meu filho precisa estudar; vamos morar na cidade!”, argumenta a cabocla que diz ter um terreno dentro de não sei que mato no Armazém, no Carnapijó, na rua Belém, ou na Lagoa Azul.
          Lembro-me da professora sugerindo ao seu aluno até que fizesse uma pesquisa sobre esses “peculiares” fatos populares do município. Não sei que peste de ‘examinação’ fez aquele garoto da dona Giloca que agora está metido a doutor. Quem não o conhecia chopeiro nos portões das escolas? Teve tino e estudou o menino.
          _ Avião, Zeca!
          _ Agora é, Dico.
         Uma outra vez, dia de pagamento também, os funcionários se alvoroçaram com o barulho de um teco-teco. Os comerciantes esfregavam as mãos gritando “Opa!” e davam tapinhas nas costas de seus auxiliares. Nas janelas e portas, nas repartições, ouviam-se “Desceu o avião”, “Sai à tarde” etc.
          _ Não era, Zeca.
          _ Era bem pra levar doente, de novo. É andaço que tá dando muito. O filhinho do Tião quase não volta.
          Pois é, tem dessas. Médico não deu jeito aqui? Belém, então. Muitas vezes o doente volta morto, e de lancha.
          Para inteirar, nesse dia desceu mais um avião, o terceiro.
          _ Te apronta, Dico. Agora é.
          _Só pode ser, agora!
         Era dinheiro sim, mas para o correio que fazia pagamento aos aposentados. A fila alcançava a esquina. Pensar que já tivemos dois bancos. Certas pessoas dizem que nossa terra é a “terra-do-já-teve”. Será que a borracha que chegava à Casa da Beira, ao Nemorino ou ao seu Paulino deixou tanta falta assim? Agora tanta coisa para construir e reconstruir! Erário pouco. Diminuiu emprego de cabide. Tem que fazer concurso! E quem tem precisa gerar!
          Funcionários que chegavam da zona rural perguntavam se havia saído dinheiro. Da esquina do mercado municipal fulano gritava “Não, só amanhã”.
          Dito e feito. Pela manhã todos estavam recebendo...
         _ Mas hoje não ouvi nenhum avião, Zeca.
         _ Nem eu, Dico. Nos de ontem não veio nada!
          O avião do dinheiro, desta vez, veio de barco.